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Marina Monteiro

Nutrição Equina

Aerofagia em Equinos: o que a ciência realmente nos mostra sobre dieta, acidez gástrica e comportamento

Entenda os mecanismos fisiológicos que desencadeiam deglutição de ar e estratégias nutricionais baseadas em evidências científicas

Marina Monteiro·
Aerofagia em Equinos: o que a ciência realmente nos mostra sobre dieta, acidez gástrica e comportamento

Aerofagia em Equinos: o que a ciência realmente nos mostra sobre dieta, acidez gástrica e comportamento

Por Marina Monteiro

Durante muitos anos, a aerofagia em equinos foi interpretada apenas como um “vício” ou um problema puramente comportamental. Porém, os estudos mais recentes mostram que essa visão é simplista demais.

Hoje sabemos que a aerofagia possui relação profunda com:

• nutrição
• fisiologia digestiva
• acidez gástrica
• manejo alimentar
• sistema de recompensa cerebral
• eixo intestino-cérebro

Mais do que um comportamento indesejado, a aerofagia pode ser um sinal de que o ambiente alimentar do cavalo está distante da fisiologia natural da espécie.

Para iniciarmos, vamos definir o que é a aerofagia. Em inglês vocês vão encontrar o termo “crib-biting” ou “windsucking” que representam uma esteriotipia oral caracterizada pelo ato do cavalo apoiar os dentes em uma superfície, contrair a musculatura cervical e engolir o ar.

As estereotipias são comportamento repetitivos, relativamente invariáveis, sem função aparente imediata.

Antigamente, a maioria dos profissionais e criadores associavam a aerofagia ao fato do animal estar estressado. E sim, isso é verdade. Porém, atualmente entendemos que muitas estereotipias possuem origem não só em estresse crônico, mas também frustração comportamental, alterações neurobiológicas e distúrbios digestivos.

Vamos aprofundar...

A fisiologia digestiva equina é baseada em ingestão contínua de fibra, mastigação prolongada, produção constante de saliva enquanto mastiga e fluxo contínuo de alimento no trato gastrointestinal.

Na natureza, o cavalo passa grande parte do dia pastejando. Mas no manejo moderno, muitos animais recebem grandes volumes de concentrado e passam horas sem fibra, ficam confinados e mastigam pouco. O cenário é completamente ao contrário e isso gera um enorme impacto gastrointestinal.

Não é só um problema teórico, é completamente prático.

A saliva que é liberada enquanto os cavalos mastigam possui efeito tamponante, ou seja, ela atua na proteção do estomago, neutralizando parte da acidez gástrica e protegendo a mucosa do estômago.

Se o cavalo não passa tempo mastigando, ele não produz saliva suficiente para neutralizar o estomago. O que favorece o aparecimento dos quadros de gastrite e úlcera gástrica.

E a acidez gástrica é associada aos quadros de aerofagia. Um dos pontos práticos para amenizar a aerofagia é colocar seu cavalo para ter acesso a fibra de qualidade mastigando por mais tempo.

Outro gatilho nutricional para aerofagia é o alto consumo de concentrado.

Estudos já comprovam que a frequência da aerofagia aumenta próximo ao fornecimento da ração.

A escolha da ração também importa, pois concentrados ricos em amido e alimentos altamente palatáveis (ricos em melaço e açúcar) estimulam mais episódios de aerofagia.

Moçada, a dieta interfere sim nos quadros de aerofagia.

Não é fácil reverter, mas é possível amenizar. Para isso, foque em dietas “antiácidas”.

Na nutrição equina de equinos, isso significa criar uma estratégia alimentar capaz de reduzir agressão ácida ao estômago, aumentar mastigação, estimular salivação, reduzir excitabilidade alimentar e aumentar estabilidade digestiva.

Passos práticos

1. Maximizar o volumoso – de qualidade

  • Mais mastigação
  • Mais saliva
  • Mais saciedade
  • Maior estabilidade gástrica
  • Slow feeder
  • Maior tempo de pastejo

Priorize cochos de volumoso que sejam slow feeder de verdade.

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2. Reduzir amido e excesso de concentrado

Dietas muito ricas em milho, aveia, açúcar e melaço elevado aumentam acidificação, excitabilidade, fermentação rápida e resposta hormonal digestiva.

O que piora o quadro da aerofagia.

Busque rações sem melaço, baixo amido e com fontes de pectina.

3. Fracionar refeições

Grandes refeições aumentam distensão gástrica, fermentação rápida e períodos de estômago vazio.

O jejum não é bom para cavalos com aerofagia.

4. Oferecer fibra antes do concentrado

O fornecimento de volumoso antes da ração aumenta a salivação, reduz velocidade de ingestão e cria proteção inicial para o estômago.

5. Utilizar fontes energéticas menos excitantes

Priorize superfibras e óleos.

As superfibras são fibras ricas em pectina encontradas principalmente em:

  • Polpa de beterraba
  • Casca de soja
  • Alfafa

6. Manejo: tão importante quanto a dieta

Nenhuma dieta resolve completamente a aerofagia se o manejo continuar inadequado.

Fatores de risco:

  • Confinamento excessivo
  • Pouco contato social
  • Pouco pastejo
  • Baixa previsibilidade de rotina
  • Baixa oportunidade de comportamento natural
A ciência moderna mostra que a aerofagia não deve mais ser vista apenas como um “vício”.

Ela está diretamente associada a gatilhos de concentrados altamente palatáveis e dietas pobres em fibra.

A nutrição correta não apenas melhora a saúde digestiva, mas pode reduzir significativamente a intensidade da aerofagia e melhorar o bem-estar do cavalo como um todo.

Referências científicas

BADNELL-WATERS, A. J.; NICOL, C. J.; HARRIS, P. A. et al.

WICKENS, C. L.; HOUSTON, D. M.; ERB, H. N.; HOUSTON, K. A.

ALBRIGHT, J.; WICKENS, C. L.; HOUTPT, K. A. et al.

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