Logo Marina Zootec

Marina Monteiro

Nutrição Equina

IONÓFOROS NA ALIMENTAÇÃO DE EQUINOS

Por que pequenas quantidades podem ser fatais?

Marina Monteiro·
IONÓFOROS NA ALIMENTAÇÃO DE EQUINOS

IONÓFOROS NA ALIMENTAÇÃO DE EQUINOS - Por que pequenas quantidades podem ser fatais?

Um aditivo nutricional capaz de aumentar a eficiência alimentar de bovinos pode matar um cavalo em poucas horas. Entenda por quê.

Quem já presenciou essa situação à campo, moçada?

Em uma propriedade rural, bovinos e cavalos vivem no mesmo pasto. O proprietário coloca um suplemento mineral no cocho para o gado, que o foco da propriedade. Os cavalos são cavalos de lida e ficam no mesmo pasto para comer o volumoso. Porém, os cavalos têm acesso ao mesmo cocho. E quando os bois finalizam o consumo, os cavalos se aproximam e comem esse suplemento. No dia seguinte, o animal apresenta sudorese intensa, dificuldade para caminhar, taquicardia e fraqueza muscular. E em pouco tempo, o animal tem morte súbita. Você já presenciou essa situação? Por que isso acontece?

Moçada, a maioria dos alimentos para bovinos, principalmente os suplementos minerais e proteinados contém uma substância chamada ionóforos. Os ionóforos são extremamente seguros e eficientes para ruminantes quando utilizados corretamente, mas representam uma das substâncias mais tóxicas para a espécie equina. A diferença entre benefício e fatalidade não está no produto em si, mas na fisiologia digestiva e celular das espécies envolvidas. Por isso eu sempre digo e repito: CAVALO NÃO É BOI! CAVALO NÃO DEVE SER TRATADO COMO BOI.

Vamos aprofundar..

Primeiramente, o que são os ionóforos?

Moléculas que se ligam aos íons metálicos e favorecem o transporte dos mesmos através da membrana celular (PRESSMAN, 1976). Na prática, quer dizer os ionóforos melhoram o processo de fermentação das bactérias do rumem, melhorando o aproveitamento dos nutrientes na dieta dos bovinos e consequentemente melhorando o desempenho dos ruminantes. Em células isoladas, os ionóforos aumentam os níveis de sódio celular, e isto aumenta a atividade da bomba sódio-potássio (SMITH e AUSTIC, 1980). Aumentos no fluxo de sódio e na bomba sódio-potássio no trato gastrointestinal pode afetar a taxa de absorção porque o transporte ativo de muitos nutrientes está acoplado ao transporte de sódio e a energia de transporte é derivada da Na+/K+ - ATPase

Os principais ionóforos utilizados para ruminantes são: Monensina, Lasalocida  e Narasina. Então moçada, se você ler algum desses nomes nos rótulos dos produtos que vocês estão oferecendo para os cavalos de vocês, já parem na hora e busquem entender.

Porque para bovinos, funciona muito bem, porém, para equinos pode ser fatal. E por quê?

A resposta está na diferença ENORME fisiológica entre ruminantes e equinos.

No bovino, os ionóforos exercem sua ação principalmente sobre as bactérias do rúmen, antes que o alimento seja digerido e absorvido. Equinos tem rumen, moçada? NÃO.

A câmara fermentativa dos bovinos é o rúmen que está localizado no estomago dos bovinos, que é no início do trato gastrointestinal. Já nos equinos, a câmera fermentativa está localizada no intestino grosso, na região do ceco e do cólon, no final do trato gastrointestinal.

Portanto, quando um cavalo ingere um ionóforo, grande parte da molécula é absorvida pelo próprio organismo antes de alcançar o intestino grosso e atuar sobre os microorganismos. Ou seja, o principal alvo passa a ser as próprias células do animal e não as bactérias. E é exatamente isso que leva a intoxicação grave.

E como os cavalos são intoxicados por ionóforos?

No cenário normal, as células matem um equilíbrio entre os íons presentes dentro e fora das membranas celulares. Esses íons são: sódio (Na⁺), potássio (K⁺), cálcio (Ca²⁺) e magnésio (Mg²⁺). E esses gradientes em equilíbrio são essenciais para contração muscular, transmissão nervosa, funcionamento cardíaco, produção de energia etc. Quando os ionóforos atuam sobre as células do cavalo e não sobre as bactérias, eles são absorvidos e facilmente atravessam essas membranas e promove uma entrada exagerada desses íons para o interior as células. A monensina, por exemplo, apresenta maior afinidade pelo sódio. Como consequência, a célula tenta restabelecer o equilíbrio ativando continuamente a bomba de sódio e potássio (Na⁺/K⁺-ATPase). Além de ocorrer um aumento secundário da concentração intracelular de cálcio. Quando esse acúmulo ultrapassa a capacidade mitocondrial, ocorre falha da fosforilação oxidativa, redução intensa da produção de ATP, edema mitocondrial, ruptura das membranas mitocondriais, liberação de enzimas intracelulares, morte celular.

Como consequência, músculos altamente dependentes de energia tornam-se os primeiros tecidos afetados. É exatamente por isso que as principais lesões observadas ocorrem no miocárdio, musculatura esquelética, diafragma.

É por isso que os principais sinais clínicos estão relacionados à fraqueza muscular e às alterações cardíacas. Os primeiros sinais costumam surgir entre 24 e 72 horas após a ingestão, embora possam aparecer mais cedo em exposições a doses elevadas.

Na primeira fase o animal apresenta apatia, redução do apetite, sudorese intensa, leve desconforto abdominal, diminuição da movimentação, podem apresentar cólica. À medida que aumenta a destruição muscular, surgem fraqueza, intolerância ao exercício, dificuldade para caminhar, tremores musculares, ataxia, rigidez de marcha. Como o miocárdio é um dos principais órgãos afetados, podem surgir taquicardia, arritmias, dispneia, edema pulmonar. Em alguns animais, a morte súbita pode ser o primeiro e único sinal clínico observado.

Moçada, e para piorar os equinos apresentam uma sensibilidade muito maior aos ionóforos do que praticamente todas as espécies domésticas.

Espécie DL50 aproximada da monensina (mg/kg PV)
Equinos2–3
Ovinos12
Bovinos20–80
Frangos~200

Fonte: Adaptado de Borges et al. (2001). SCHADE, J. et al. 2022

Isso significa que a quantidade capaz de matar metade dos cavalos expostos é cerca de 10 a 100 vezes menor do que aquela observada em bovinos. Ou seja, com pouca quantidade de ionóforos consumido os cavalos já podem se intoxicar.

Portanto, moçada. É fundamental que tenhamos atenção ao oferecimento dos alimentos para equinos. Precisamos oferecer sempre alimentos que sejam para equinos e não para bovinos e nem para aves (as aves também utilizam muito ionóforos, então “dar ração de frango de corte para o cavalo engordar” não deve ser praticado). Também se atentem a sempre escolher rações de qualidade e de fábricas de ração que sejam sérias e que tenham um controle de qualidade de excelência. Pois a contaminação cruzada em fábricas de rações também pode ocorrer.

Checklist para propriedades rurais

✔ Nunca oferecer suplementos destinados a bovinos para cavalos.

✔ Armazenar separadamente alimentos de bovinos e equinos.

✔ Identificar claramente todos os sacos e recipientes.

✔ Não compartilhar cochos entre bovinos e cavalos.

✔ Utilizar misturadores exclusivos ou realizar limpeza rigorosa entre formulações.

✔ Comprar rações apenas de fabricantes que possuam controle de contaminação cruzada.

✔ Treinar funcionários para reconhecer produtos contendo monensina, lasalocida, salinomicina e narasina.

✔ Manter cavalos afastados de áreas onde suplementos para ruminantes são fornecidos.

Moçada, o assunto é sério e precisa ser entendido. Para veterinários, zootecnistas e consultores, compreender esse mecanismo é fundamental para orientar corretamente os proprietários. Já para criadores e responsáveis pelo manejo, a principal mensagem é clara: nenhum suplemento ou ração contendo ionóforos deve ser oferecido a cavalos, e medidas rigorosas de prevenção devem fazer parte da rotina das propriedades que criam bovinos, aves e equinos no mesmo ambiente.

Referências bibliográficas:

PRESSMAN, B. C. Biological applications of ionophores. Annual Review of Biochemistry, v. 45, p. 501–530, 1976.

SMITH, H. W.; AUSTIC, R. E. The mode of action of the ionophore antibiotics in animal nutrition. Journal of Animal Science, 1980.

BERGEN, W. G.; BATES, D. B. Ionophores: Their effect on production efficiency and mode of action. Journal of Animal Science, v. 58, p. 1465–1483, 1984.

SCHADE, J.; SOUZA, A. F.; CURTI, J. M.; GONÇALVES, G. R.; DORNBUSCH, P. T. Ionóforos e intoxicação em equinos. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v.20, n.1, e38232, 2022

BORGES, A. S.; SILVA, D. P. G.; GONÇALVES, R. C.; KUCHEMBUCK, M. R. G.; CHIACCHIO, S. B.; MENDES, L. C. N.; BANDARRA, E. P. Ionóforos e equinos: uma combinação fatal. Revista de Educação Continuada CRMV-SP, v.4, n.2, p.33–40, 2001

NOVILLA, R. F. Ionophores. In: GUPTA, R. C. (Ed.). Veterinary Toxicology: Basic and Clinical Principles. 3rd ed. Academic Press, 2018.

Continue sua jornada

Quer aprofundar esse conhecimento?

Gostou deste artigo?

Receba os próximos diretamente no email. Publica quando tem conteúdo de verdade para compartilhar.