Marina Monteiro
Nutrição Equina
Especialista em Nutrição Equina
Laminite em Equinos: Como os erros nutricionais podem desencadear essa doença
Entenda como o excesso de amido pode gerar quadros de inflamação nas lâminas dos cascos

Laminite em Equinos: Como os Erros Nutricionais Podem Desencadear Essa Doença
Você sabe qual é a função zootécnica dos cavalos? Quando pensamos em bovinos é mais fácil não é mesmo, ou é corte ou é leite. Mas, e os equinos? Você já parou para pensar nisso?
Por isso, a laminite é uma das doenças mais temidas pelos proprietários de cavalos, pois ela afeta diretamente a locomoção dos equinos. E sem locomoção, não tem cavalo.
A laminite é uma inflamação das lâminas dos cascos, que pode gerar dor intensa, claudicação podendo comprometer permanentemente a locomoção dos animais e em alguns casos levar à eutanásia.
Embora traumas e doenças sistêmicas possam desencadear a laminite, os erros no manejo alimentar e na nutrição dos cavalos estão entre as principais causas da doença.
Por isso, é fundamental entender a relação entre nutrição e saúde dos cascos para prevenir problemas e garantir a longevidade dos equinos.
Vamos começar do início, o que é laminite?
A laminite é uma inflamação das lâminas sensíveis do casco, estruturas responsáveis por sustentar a terceira falange (osso do casco) dentro da cápsula córnea.
Quando ocorre uma agressão metabólica ou inflamatória, essas estruturas podem perder sua capacidade de sustentação, permitindo a rotação ou até mesmo o afundamento da terceira falange.
O resultado é um cavalo com dor intensa, dificuldade para caminhar e redução significativa do desempenho.
“Mas, Marina, como o que o meu cavalo come pode interferir nos cascos?”
A alimentação inadequada pode desencadear alterações metabólicas e digestivas que favorecem o desenvolvimento da doença.
Na prática, os alimentos que são ricos em açúcar e amido, são principalmente os grãos.
E quando falamos em grãos, os dois que são mais ricos em amido são o milho e a aveia. Seja oferecendo puro ou como componentes em rações comerciais.
Esse assunto é tão sério que o mercado de rações está cada vez mais buscando alternativas de colocar energia nas rações que não sejam provenientes de fontes de amido como a utilização de óleos e fontes de pectina. Hoje já é possível encontrar no mercado rações conhecidas como “low carb/low starch”.
Além dos concentrados em excesso, a laminite também pode estar associada a pastos com crescimento acelerado, forragens de inverno ou pastos que estão brotando. Os brotos são ricos em açúcares e podem levar ao aparecimento de laminite nos cavalos.
Mas, como isso funciona dentro do cavalo?
A primeira informação técnica que você precisa saber é que os equinos têm um intestino dividido em duas partes: o intestino delgado e o intestino grosso.
A fração de proteínas, carboidratos hidrolisáveis e lipídeos são digeridas no intestino delgado.
Na prática, eu estou dizendo que os concentrados comerciais, o milho e a aveia deveriam ser completamente digeridos a nível de intestino delgado pelas enzimas digestivas.
Pois, o intestino grosso é o local que ocorre a digestão da fibra que é denominada fermentação.
A fermentação da fibra é realizada pelos microorganismos presentes no intestino grosso.
Então, todo o capim, feno, pré-secado ou qualquer fonte de volumoso, tem sua fração fibrosa digerida no intestino grosso.
Esse é o mundo ideal.
Porém, quando um cavalo consome grandes quantidades de grãos ou concentrados ricos em amido, como milho, aveia ou rações mal balanceadas, parte desse amido pode escapar da digestão no intestino delgado e atingir o intestino grosso.
Esse excesso de amido alcança o intestino grosso, onde sofre intensa fermentação bacteriana.
O problema é que o intestino grosso não é local para digerir excesso de amido, e sim fibra.
Quando o amido alcança o intestino grosso, ele promove o crescimento de bactérias amilolíticas para realizarem a fermentação desse amido.
Essa alteração favorece a morte de bactérias benéficas, aquelas que fermentam fibra, pois essas não sobrevivem a pH muito ácido.
A lise dessas bactérias benéficas e a acidose intestinal favorecem a liberação de endotoxinas e outros mediadores inflamatórios que podem entrar na circulação sanguínea e atingir os cascos, levando à famosa laminite.
Esse mecanismo foi demonstrado por Milinovich et al. (2008), que observaram profundas alterações na microbiota intestinal de cavalos submetidos à indução experimental de laminite por sobrecarga de carboidratos fermentáveis.
Os autores concluíram que a mudança na população microbiana intestinal desempenha papel importante no desenvolvimento da doença.
Os efeitos do excesso de carboidratos sobre a saúde dos cascos são tão consistentes que existem modelos experimentais de laminite desenvolvidos especificamente para estudar esse mecanismo.
Em um estudo conduzido por Leise et al. (2011), cavalos receberam uma sobrecarga de amido suficiente para induzir laminite experimentalmente.
Os pesquisadores observaram aumento significativo da expressão de genes inflamatórios nas lâminas do casco, demonstrando que a sobrecarga de carboidratos é capaz de desencadear uma resposta inflamatória diretamente relacionada ao desenvolvimento da doença.
E não limite sua expertise a apenas “excesso de milho, aveia e ração”.
Tudo está interligado.
Animais obesos, com resistência à insulina ou portadores da Síndrome Metabólica Equina apresentam maior predisposição ao desenvolvimento da doença.
Nesses casos, mesmo o consumo excessivo de açúcares presentes em determinadas pastagens pode desencadear alterações metabólicas suficientes para afetar as lâminas do casco.
Como prevenir?
- Evitar excesso de amido e açúcar na dieta;
- Não oferecer milho e aveia puros como mais um trato além das rações comerciais;
- Priorizar milho extrusado quando presente na ração;
- Buscar rações baixo amido e, se possível, sem melaço;
- Fracionar o fornecimento de concentrado;
- Priorizar volumosos de boa qualidade;
- Monitorar o escore corporal regularmente;
- Controlar o acesso de animais predispostos a pastagens muito ricas;
- Avaliar resistência à insulina quando necessário;
- Formular dietas balanceadas de acordo com a categoria e atividade do animal.
A laminite não surge por acaso. Em muitos casos, ela é consequência de erros nutricionais que poderiam ser evitados com um manejo alimentar adequado.
Entender a relação entre dieta, metabolismo e saúde dos cascos é essencial para manter cavalos saudáveis, produtivos e livres de dor.
Não negligenciem a nutrição.
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Referências
LEISE, B. S. et al. Laminar inflammatory gene expression in the carbohydrate overload model of equine laminitis. Equine Veterinary Journal, 2011.
MILINOVICH, G. J. et al. Microbial ecology of the equine hindgut during oligofructose-induced laminitis. The ISME Journal, 2008.
EADES, S. C. Experimental Models of Laminitis: Starch Overload. In: Equine Laminitis. Wiley Blackwell, 2016.
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