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Marina Monteiro

Nutrição Equina

Nutrição de potros desmamados: como formular uma dieta que favoreça o crescimento sem aumentar o risco de doenças ortopédicas

Estratégia nutricional baseada em evidências para evitar crescimento acelerado e lesões no desenvolvimento ósseo

Marina Monteiro·
Nutrição de potros desmamados: como formular uma dieta que favoreça o crescimento sem aumentar o risco de doenças ortopédicas

Nutrição de potros desmamados: como formular uma dieta que favoreça o crescimento sem aumentar o risco de doenças ortopédicas

O desmame representa uma das fases mais delicadas da criação de equinos. A partir desse momento, o potro deixa de receber nutrientes provenientes do leite da égua e passa a depender exclusivamente da dieta sólida para suprir todas as suas exigências nutricionais.

Essa mudança ocorre justamente durante um dos períodos de maior velocidade de crescimento. Entre os 6 e 12 meses de idade, um potro pode atingir aproximadamente 60 a 70% do seu peso adulto, enquanto seu sistema musculoesquelético ainda está em intenso desenvolvimento. Isso significa que qualquer erro nutricional cometido nessa fase pode comprometer o desempenho esportivo futuro e aumentar o risco de alterações ortopédicas.

É comum encontrar criadores preocupados apenas com o ganho de peso, acreditando que quanto mais rápido o potro crescer, melhor será seu desenvolvimento. Entretanto, a ciência demonstra exatamente o contrário: o objetivo da nutrição não deve ser promover crescimento acelerado, mas sim um crescimento contínuo, uniforme e equilibrado.

Crescimento rápido não significa crescimento saudável

Após o desmame, muitos proprietários aumentam a quantidade de concentrado na tentativa de acelerar o desenvolvimento do animal.

Embora essa estratégia frequentemente resulte em maior ganho de peso, ela também pode favorecer o aparecimento das chamadas Doenças Ortopédicas do Desenvolvimento (Developmental Orthopedic Disease – DOD), grupo que inclui alterações como osteocondrose, epifisite e deformidades angulares.

O problema não está apenas no excesso de energia consumida, mas principalmente na velocidade com que esse crescimento acontece.

O tecido muscular responde rapidamente ao aumento da oferta energética. Já a cartilagem e o tecido ósseo apresentam velocidade de desenvolvimento diferente. Quando ocorre crescimento excessivamente acelerado, esses tecidos podem não acompanhar a mesma taxa de deposição, aumentando a incidência de alterações locomotoras, especialmente em animais geneticamente predispostos.

Além disso, períodos de restrição alimentar seguidos por dietas muito energéticas promovem o chamado crescimento compensatório. Embora o animal recupere parte do peso perdido, esse crescimento abrupto também está associado a maior risco de DOD.

Por isso, o objetivo da formulação de dietas para potros não é produzir o maior ganho médio diário possível, mas manter uma curva de crescimento constante durante toda a fase de desenvolvimento.

Quais são as exigências nutricionais de um potro desmamado?

As exigências nutricionais variam conforme a idade, peso corporal e peso adulto esperado.

O NRC (2007) calcula essas exigências considerando a velocidade de crescimento do animal e seu peso adulto estimado.

Como exemplo, considere um potro que deverá atingir aproximadamente 500 kg quando adulto.

Idade Peso NRC GMD ED PB Lisina
6 meses 216 kg 0,72 kg/dia 15,5 Mcal/dia 676 g/dia 29,1 g/dia
12 meses 321 kg 0,45 kg/dia 18,8 Mcal/dia 846 g/dia 36,4 g/dia
18 meses 387 kg 0,29 kg/dia 19,2 Mcal/dia 799 g/dia 34,4 g/dia

Legenda: GMG (Ganho de peso diário). ED (Energia digestível). PB (proteína bruta).

Observe um detalhe interessante.

Enquanto a necessidade energética aumenta conforme o animal cresce, a exigência de proteína e lisina por quilograma de peso corporal diminui gradativamente, acompanhando a redução da velocidade de crescimento.

Isso reforça a importância de ajustar a dieta de um potro ainda quando novo. Muitos proprietários na prática tem a ideia de soltar o animal no pasto e tratar só depois que for montar por volta de 3 anos. O fato de criar um animal solto no pasto é ótimo, porém, ele precisa ter um suporte nutricional, se o potro desmamado ficar apenas no pasto (que muitas vezes não é um pasto de qualidade) muito provavelmente não vai atender as necessidades nutricionais.

Ao longo da minha carreira, já encontrei muitos potros próximo aos 3 anos que não deram altura mínima de registro, justamente porque não foram bem nutridos no início da vida. Que é a fase mais exigente.

Também quero deixar uma observação sobre a tabela do NRC moçada: essa tabela não é regra. O NRC é um livro e um sistema americano, então as raças utilizadas para estudo não necessariamente são as mesmas que temos aqui. São valores para vocês terem como base. É importante fazer um acompanhamento do plantel específico de cada haras e criar a própria curva de crescimento e desenvolvimento para cada propriedade.

A proteína é importante, mas a lisina é quem determina o crescimento

No campo ainda é muito comum ouvir que uma ração "tem bastante proteína". Porém, na prática, essa informação isolada não quer dizer muita coisa, moçada.

Aprenda algo importante: o que realmente determina o aproveitamento da proteína é o perfil de aminoácidos.

Então, a partir de hoje, quando alguém te falar: “essa ração é muito boa para potros, tem 18% de proteína”. Você vai perguntar de volta: “qual a fonte dessa proteína?”

É isso que vocês precisam ter em mente. A fonte da proteína está ligada ao perfil de aminoácidos. Algumas fontes de proteína têm quantidades de aminoácidos adequadas outras não tem.

Portanto, rações com 18% de proteína que possuem fontes de proteína diferentes, podem apresentar desempenhos completamente diferentes. Uma ração formulada com ingredientes de alta qualidade, como farelo de soja, apresenta concentração de lisina muito superior àquela baseada apenas em farelo de trigo, que é um ingrediente pobre em lisina.

A lisina é considerada pelo NRC (2007) o primeiro aminoácido limitante para equinos em crescimento. Em outras palavras, mesmo que exista proteína suficiente na dieta, a deficiência de lisina limita a síntese proteica e impede que o animal expresse seu potencial de crescimento.

O potro precisa de energia, porém, atenção a fonte.

A energia continua sendo um dos nutrientes mais importantes para o crescimento.

Porém, fornecer grandes quantidades de concentrado não significa necessariamente melhor desempenho.

O sistema digestório do cavalo possui capacidade limitada para digestão de amido no intestino delgado. Quando essa capacidade é ultrapassada, parte do amido chega intacta ao intestino grosso, alterando a microbiota, reduzindo o pH e aumentando o risco de distúrbios digestivos.

Na prática, recomenda-se limitar o consumo de amido a aproximadamente 1 g/kg de peso vivo por refeição, dividindo o concentrado em pelo menos duas ou três refeições diárias.

Para um potro de 300 kg, por exemplo, cada refeição não deveria fornecer mais do que cerca de 300 g de amido.

Essa estratégia melhora o aproveitamento energético e reduz a ocorrência de alterações digestivas.

Atenção moçada! O volumoso continua sendo a base da dieta. Sempre.

Fenos de excelentes qualidade ou capins bem manejados oferecidos em formato “fibra longa” sem ser picado, promovem maior tempo de mastigação, favorecem a produção de saliva, estimulam o desenvolvimento da microbiota intestinal e fornecem parte importante da energia através da fermentação das fibras.

Como referência prática, recomenda-se fornecer pelo menos 1,5% do peso corporal em matéria seca de volumoso, podendo esse valor chegar próximo de 2% quando a qualidade da forragem é elevada.

Além disso, o consumo total de matéria seca na dieta de potros normalmente varia entre 2,5 e 3,0% do peso corporal por dia na matéria seca, dependendo da idade e da qualidade dos alimentos.

Por último e extremamente importante, são os minerais. Principalmente quando pensamos em cálcio e fósforo. Poucos nutrientes recebem tanta atenção quanto cálcio e fósforo durante o crescimento. Entretanto, fornecer grandes quantidades desses minerais não significa melhor desenvolvimento ósseo.

O importante é manter o equilíbrio entre eles.

Segundo o NRC (2007), a relação cálcio:fósforo deve permanecer entre 1,2:1 e 2:1. Ou seja, 2 de cálcio para 1 de fósforo. Então, escolher alimentos que tem relação cálcio e fósforo invertida não é um bom caminho. O farelo de trigo, malte, silagem de milho são alimentos com alto teor de fósforo.

Além desses minerais, cobre, zinco e manganês participam da síntese de colágeno, formação da matriz cartilaginosa e mineralização óssea.

Deficiências de cobre, por exemplo, já foram associadas ao aumento da incidência de osteocondrose em animais susceptíveis.

Não se esqueçam de acompanhar mensalmente.

Uma dieta corretamente formulada precisa ser constantemente ajustada. À medida que o potro cresce, suas exigências nutricionais mudam rapidamente.

Por isso, recomenda-se reavaliar mensalmente:

  • peso corporal;
  • altura na cernelha;
  • escore corporal (ideal entre 4,5 e 5 na escala de Henneke).
  • desenvolvimento muscular;
  • qualidade dos cascos;
  • velocidade de crescimento.

Esses parâmetros permitem corrigir a dieta antes que ocorram perdas de desempenho ou crescimento excessivamente rápido.

Conclusão

A nutrição de potros desmamados vai muito além de oferecer uma ração com alto teor de proteína. O sucesso dessa fase depende do equilíbrio entre energia, proteína de alta qualidade, aminoácidos essenciais, minerais e manejo alimentar.

Mais importante do que fazer o animal crescer rapidamente é garantir que ele cresça de forma constante, respeitando o desenvolvimento do sistema musculoesquelético.

Uma dieta formulada com base nas exigências do NRC (2007), associada ao monitoramento periódico do crescimento, reduz significativamente o risco de doenças ortopédicas do desenvolvimento e permite que o potro expresse todo o seu potencial genético ao longo da vida.

Referências científicas

National Research Council (NRC). Nutrient Requirements of Horses. 6th Revised Edition. National Academies Press, Washington, DC, 2007.

Lawrence, L.M. Nutrition of the Growing Horse. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice. 1994.

Pagan, J.D. Growth and Nutrition of Young Horses. Kentucky Equine Research.

Ralston, S.L. Growth and Development of Horses. Rutgers University.

Geor, R.J.; Harris, P.A.; Coenen, M. Equine Applied and Clinical Nutrition. Saunders Elsevier, 2013.

McKenzie, E.C.; Valberg, S.J. Nutritional management of growing horses. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice.

Hintz, H.F. Nutrition and Growth of Horses. Cornell University.

Lawrence, L.M.; Cymbaluk, N.F. Nutrient Requirements of the Growing Horse.

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