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Marina Monteiro

Nutrição Equina

Processamentos térmicos do milho para equinos. Qual escolher?

Milho inteiro, farelado, laminado, peletizado, extrusado ou floculado?

Marina Monteiro·
Processamentos térmicos do milho para equinos. Qual escolher?

Processamentos térmicos do milho para equinos. Qual escolher?

Milho inteiro, farelado, laminado, peletizado, extrusado ou floculado?

O milho é uma das principais fontes energéticas utilizadas na alimentação de equinos há anos, principalmente por seu alto teor de amido. O amido é um carboidrato utilizado como fonte de energia. Porém, o ponto mais positivo de utilizar o milho é também o mais crítico.

O excesso de amido na dieta não é bem aproveitado pelos cavalos, gerando quadros de cólica, laminite e problemas metabólicos graves.

O primeiro caminho para evitar problemas nutricionais é reduzir o amido da dieta, escolhendo concentrados que são “rações baixo amido” (tem um artigo completo aqui no blog sobre o porquê de o excesso de amido ser um problema, sugiro que leia para complementar).

Além de escolher uma dieta baixo amido, temos outro caminho complementar para evitar problemas. Podemos fazer escolhas assertivas em relação ao milho presente nas rações comerciais em relação ao processamento térmico do milho.

O processamento interfere diretamente na digestibilidade do amido, ou seja, na capacidade do cavalo aproveitar essa energia antes que o amido chegue em excesso ao intestino grosso.

Quando muito amido escapa da digestão no intestino delgado e chega ao ceco e cólon, ele pode favorecer fermentação rápida, queda de pH, alteração da microbiota, aumento da produção de ácido lático e maior risco de distúrbios digestivos e metabólicos.

Ou seja, o objetivo é escolher dietas baixo amido, e o amido que estiver presente, que seja realizado um processamento térmico para melhorar o aproveitamento.

Por isso, entender a diferença entre milho inteiro, farelado, laminado, peletizado, extrusado e floculado é essencial para formular dietas mais seguras e eficientes.

Vamos começar do início, primeira pergunta: Por que o processamento do milho muda a digestibilidade do amido?

O grão de milho possui uma estrutura que protege o amido. Esse amido está envolvido por matriz proteica e estruturas físicas do grão que dificultam o acesso das enzimas digestivas. Denominamos esse efeito de vitrificação, o amido do milho é vitrificado, ou seja, mais difícil das enzimas quebrarem a macromolécula para realizar a digestão.

Quando o milho passa por processamento físico ou térmico, essa estrutura pode ser rompida. Com isso, o amido fica mais exposto à ação enzimática, principalmente no intestino delgado, facilitando a digestão e impedindo que o amido escape em excesso para o intestino grosso. Lembrem-se: o intestino grosso é o local para digestão da fibra, denominada fermentação.

De forma geral:

  • Processamentos apenas físicos, como quebrar, moer ou laminar, melhoram um pouco o acesso ao amido.
  • Processamentos térmicos ou hidrotérmicos, como peletização, extrusão e floculação, tendem a promover maior gelatinização do amido.
  • Quanto maior a gelatinização adequada do amido, maior tende a ser sua digestibilidade pré-cecal, ou seja, antes de chegar ao intestino grosso.

Mas atenção: isso não significa que todo processamento térmico será sempre melhor. Temperatura, umidade, tempo de cozimento, pressão e qualidade do processo influenciam muito o resultado.

Vamos aos processamentos mais utilizados:

1) Milho inteiro

O milho inteiro é o grão sem quebra ou cozimento. Para equinos, é a forma de menor aproveitamento, porque a casca e a estrutura do grão dificultam o acesso das enzimas ao amido.

Na prática, é comum observar grãos inteiros ou parcialmente digeridos nas fezes quando o cavalo recebe milho inteiro. Isso indica perda de eficiência nutricional.

O problema do milho inteiro não é apenas “perder energia nas fezes”. Parte desse amido pode escapar da digestão no intestino delgado e chegar ao intestino grosso, onde será fermentado pela microbiota.

Por isso, o milho inteiro não costuma ser a melhor escolha para equinos, principalmente quando usado em maiores quantidades. Portanto, oferecer milho inteiro, ração com partícula de milho inteiro, silagem de milho, não são boas opções para cavalos.

2) Milho farelado ou moído

O milho farelado passa por moagem. Esse processo reduz o tamanho de partícula e aumenta a área de contato do amido com as enzimas digestivas.

Comparado ao milho inteiro, o milho moído tende a melhorar a digestibilidade por conta do aumento da superfície de contato, mas a melhora é pouco significativa, pois não há temperatura no processo. A capacidade de aumentar a digestibilidade de um ingrediente está associado a altas temperaturas, pressão e umidade, o que não ocorre no processo de moagem do milho farelado.

Outro ponto importante é que a moagem muito fina pode aumentar a velocidade de consumo e a disponibilidade rápida do amido, o que exige cuidado no manejo alimentar.

Na prática, também não é o ideal. Se for ser utilizado, é importante assegurar a quantidade de amido por trato fazendo o cálculo correto do amido.

3) Milho laminado

O milho laminado passa por rolos que achatam o grão. Quando é apenas laminado a seco, o efeito é mais físico do que térmico. Ele rompe parcialmente a estrutura do grão, mas não promove tanta gelatinização do amido.

Por isso, o milho laminado tende a ser melhor que o milho inteiro, mas inferior aos processamentos que envolvem vapor, umidade e calor controlado.

Portanto, não se enganem, existem muitas rações comerciais que utilizam o milho laminado e ainda utilizam isso como estratégia de marketing. Quando comparamos com milho grão, sem dúvidas é melhor. Mas, não é um processamento de alta temperatura que eleva a digestibilidade, como ocorre nos próximos exemplos.

4) Milho peletizado

Na peletização, os ingredientes são moídos, misturados e submetidos a calor, umidade e pressão para formação do pellet.

Esse processo pode melhorar a digestibilidade do amido quando comparado ao milho grão, farelo e laminado, porque ocorre certo grau de cozimento e gelatinização. Porém, a intensidade da gelatinização na peletização geralmente é menor do que na extrusão.

A peletização também melhora a uniformidade da ração, reduz seleção de ingredientes e facilita o fornecimento.

No entanto, a qualidade do pellet depende da formulação, da temperatura, da umidade e do tempo de condicionamento. Um pellet mal processado pode não entregar grande melhoria na digestibilidade do amido.

Fiquem atentos a rações peletizadas que esfarelam demais. Além disso, diferenciem concentrados peletizados de milho peletizado. Muitas vezes a ração comercial é peletizada com multiparticulas, o que quer dizer que ela é peletizada mas tem partículas com outros processamentos, como laminação, inteiro, extrusão.

Exemplo:

Ração 100% peletizada: se tiver milho na composição, o milho está peletizado.

Ração peletizada multipartículas: pode existir além do pellet, o milho inteiro, laminado ou extrusado. Ou seja, o processamento físico ou térmico pode ser apenas no milho.

Então escolher uma ração peletizada com grão de milho inteiro não é uma boa opção, mas, escolher uma ração peletizada com milho extrusado já é uma opção melhor, como vamos ver no próximo processamento.

5) Milho extrusado

A extrusão é um processamento térmico mais intenso. O milho ou a mistura de ingredientes passa por calor, umidade, pressão e cisalhamento mecânico.

Esse processo rompe a estrutura do grão e promove maior gelatinização do amido, facilitando a digestão enzimática no intestino delgado.

Por isso, o milho extrusado tende a apresentar maior digestibilidade do amido do que o milho peletizado, laminado, moído e inteiro.

Do ponto de vista nutricional, a extrusão pode ser uma boa estratégia para aumentar o aproveitamento energético e reduzir a quantidade de amido que chega ao intestino grosso.

Porém, isso não significa que o milho extrusado possa ser usado sem limite. Mesmo com melhor digestibilidade, a quantidade de amido por refeição ainda precisa ser controlada.

6) Milho floculado

O milho floculado, também chamado de steam-flaked corn, passa por vapor e depois por rolos, formando flocos mais finos.

Esse processamento combina umidade, calor e alteração física do grão, promovendo gelatinização parcial do amido e maior exposição da estrutura interna do milho.

Na prática, o milho floculado costuma ter digestibilidade superior ao milho petizado, laminado e moído. Porém, também exige atenção, porque a maior disponibilidade do amido pode aumentar a resposta glicêmica e insulinêmica, principalmente em animais sensíveis.

Moçada, dessa forma fica claro que quanto maior o processamento térmico alinhado a pressão e umidade maior a digestibilidade do amido do milho.

Portanto, encontrar rações comerciais que possuam algum processamento térmico no milho além de serem rações com a proposta de baixo amido é um bom caminho.

Lembrem-se sempre: existe um máximo de amido permitido por trato para se tornar um pouco mais seguro. Respeite a quantidade correta, além de escolher bem os processamentos. Para ser ainda mais seguro, priorize fibras digestíveis como as superfibras (pectina) como fonte de energia para substituir o amido.

Na nutrição de equinos, não existe apenas um ingrediente bom ou ruim isoladamente. Existe ingrediente bem indicado, bem processado e bem ajustado dentro da dieta.


Referências Científicas:

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