Marina Monteiro
Nutrição Equina
Especialista em Nutrição Equina
Silagem de capim para equinos: desafios, cuidados e estratégias para melhorar a qualidade.
Como garantir volumoso nutritivo em períodos de escassez de forragem de qualidade

Silagem de capim para equinos: desafios, cuidados e estratégias para melhorar a qualidade.
A base da alimentação de equinos é o volumoso de qualidade.
Tradicionalmente, o feno e o pasto são as principais fontes de fibra utilizadas na dieta dos cavalos – desde que estejam bons -. Entretanto, em algumas regiões e épocas do ano, a produção e o armazenamento de feno podem se tornar desafiadores, levando os criadores a buscarem alternativas de conservação de forragens.
Nesse cenário, a silagem de capim surge como uma possibilidade, principalmente por ser uma opção frente a silagem de milho. Mas será que cavalos podem consumir silagem de capim? Apesar de ser amplamente utilizada na bovinocultura, sua utilização em equinos ainda gera dúvidas, principalmente em relação à qualidade fermentativa e à segurança alimentar.
Afinal, a silagem de capim pode ser utilizada na alimentação de equinos?
A resposta é: sim, desde que seja produzida corretamente e apresente adequada qualidade nutricional e sanitária (Assim como o feno, o capim, o pré secado, o tempo todo eu reforço com vocês sobre qualidade da escolha do alimento).
Então, bora começar a aprofundar moçada!
O que é a silagem de capim?
A ensilagem é uma técnica de conservação de forragens baseada na fermentação anaeróbica (sem presença de oxigênio). Então, a silagem de capim é o produto da conservação anaeróbica de uma forragem colhida, compactada e armazenada em ambiente sem presença de oxigênio que contém menos de 50% de matéria seca.
No processo de ensilagem, quando a forrageira já foi cortada, compactada e vedada. As bactérias produtoras de ácido lático (que fermentam em ambiente sem oxigênio) utilizam os açúcares presentes na planta e produzem ácidos orgânicos, reduzindo o pH do material e impedindo a deterioração. É por isso que o alimento fica conservado.
Quando esse processo ocorre corretamente, os nutrientes da planta são preservados por longos períodos. E para que esse processo seja feito corretamente, precisa ter atenção ao momento ideal de corte da planta, a compactação adequada do silo e a vedação.
Atenção: Se o seu capim está ruim, a sua silagem vai ser ruim!
Se o seu capim for bom, mas o seu processo de ensilagem for mal feito, a sua silagem vai ser ruim.
Se o seu capim for bom e o seu processo de ensilagem também for bom, a sua silagem terá qualidade.
A silagem não transforma um capim ruim em um volumoso de qualidade. Ela apenas conserva parte dos nutrientes presentes no momento da colheita.
Os principais fatores que determinam a qualidade nutricional da silagem são:
- Estádio de maturação da planta;
- Relação folha:colmo;
- Espécie forrageira;
- Manejo de adubação;
- Momento do corte;
- Eficiência da conservação.
Quanto mais madura a planta, maiores serão os teores de fibra e lignina e menor será a digestibilidade.
Entre os capins mais utilizados para ensilagem estão: Capim-elefante, Mombaça, Tanzânia, Zuri, Tifton 85, Coast-Cross, Jiggs.
Entretanto, diferentemente do milho, essas gramíneas apresentam características que dificultam a obtenção de uma fermentação ideal.
Por que a silagem de capim é mais desafiadora que a silagem de milho?
O principal desafio da silagem de capim está relacionado ao seu elevado teor de água no momento do corte.
Enquanto uma silagem de milho normalmente apresenta entre 30 e 38% de matéria seca no momento ideal de ensilagem, muitas gramíneas tropicais são colhidas com apenas 18 a 25% de matéria seca.
Essa diferença é extremamente importante.
Quanto menor a matéria seca -> maior a atividade de água -> maior a atividade microbiana -> maior o risco de fermentações indesejáveis -> maior a produção de efluentes -> maiores as perdas de nutrientes = contaminação.
Além disso, gramíneas tropicais geralmente possuem menores concentrações de carboidratos solúveis quando comparadas ao milho. Isso significa que existe menos substrato disponível para as bactérias ácido-láticas realizarem uma fermentação eficiente.
OBS: Moçada, que fique claro que esse artigo não está favorecendo a silagem de milho, pois sabemos que o excesso de milho – amido – na dieta de equinos é um risco muito alto. Tem vários artigos aqui no blog falando sobre isso. O Objetivo aqui é trazer pontos de melhoria para silagem de capim para que ela seja utilizada como uma fonte de volumoso para equinos. Já que, temos um desafio enorme com a silagem de milho por conta do excesso de amido.
O que acontece quando a silagem de capim fica muito úmida?
Silagens excessivamente úmidas favorecem o crescimento de bactérias do gênero Clostridium.
Essas bactérias são indesejáveis porque consomem açúcares, degradam proteínas e principalmente produzem o ácido butírico, que aumenta a produção de amônia e reduzem a palatabilidade da silagem. Na prática, isso quer dizer que a silagem está contaminada.
Você vai observar: odor desagradável, cheiro rançoso ou podre, menor consumo pelos animais, menor valor nutricional e obviamente um risco enorme de contaminação para os equinos.
Portanto, chegamos a uma encruzilhada, se eu quero buscar uma alternativa para silagem de milho para abaixar o amido da dieta dos equinos e a silagem de capim tem menos amido, mas é mais úmida, o que eu posso fazer?
Buscar alternativas para aumentar a matéria seca da silagem de capim, para que ela seja mais segura e seja a opção de volumoso com menos amido comparado a silagem de milho.
Vamos as estratégias:
1. Pré-murchamento
Deixe o capim secar no campo por algumas horas após o corte. O objetivo é elevar a matéria seca para níveis próximos de 30 a 40%.
2. Corte em horários adequados
Sempre que possível, o corte deve ser realizado em períodos sem previsão de chuva e nem pós chuva. Isso favorece uma secagem mais rápida da forragem.
3. Utilização de ingredientes absorventes
Essa é uma estratégia que vem sendo cada vez mais utilizada. O objetivo é incorporar ingredientes de elevada matéria seca capazes de absorver parte da umidade da massa ensilada para reduzir o risco de fermentações indesejáveis. Entre as alternativas disponíveis, a casquinha de soja se destaca. Ao reduzir o excesso de água, cria-se condições mais favoráveis para o desenvolvimento das bactérias ácido-láticas.
Quero destacar com vocês que a casquinha de soja não é apenas uma alternativa para retirar a umidade, ela aumenta o valor nutricional da silagem de capim, pois possui altas concentrações de pectina, que é uma fibra de alta qualidade para aproveitamento dos equinos, contribuindo para aumentar a densidade energética da silagem.
Conclusão
A maior limitação da silagem de capim quando comparada à silagem de milho é o seu menor teor de matéria seca e a maior dificuldade em atingir uma fermentação eficiente. Por isso, estratégias que aumentem a matéria seca da massa ensilada são fundamentais para o sucesso do processo.
Entre elas, o pré-murchamento e a utilização de ingredientes absorventes, como a casquinha de soja, destacam-se como ferramentas eficientes para reduzir perdas, melhorar a fermentação e aumentar a qualidade final da silagem.
Quando bem produzida, a silagem de capim pode ser uma alternativa viável para complementar o fornecimento de volumoso aos equinos, especialmente em regiões e épocas do ano com menor disponibilidade de pastagens.
Portanto, a pergunta que devemos fazer não é se a silagem de capim pode ou não ser utilizada em equinos. E sim: a silagem de capim foi produzida com qualidade suficiente para ser oferecida aos cavalos com segurança?
Referências
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Müller C.E. Silage and haylage for horses. Grass and Forage Science, 2018.
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Wilkinson J.M. Silage and Animal Health. Chalcombe Publications.
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